Minha Maior Desilusão e Desafio no Conselho Tutelar: O Dia em que Entendi os Limites e Impossibilidades da Função
Quando assumi o mandato, estava tomado por um entusiasmo quase ingênuo. Acreditava que a disposição para trabalhar, o conhecimento técnico do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a vontade de fazer a diferença seriam suficientes para resolver a maioria das violações de direitos que chegassem à minha mesa.
9/21/20264 min read


Minha Maior Desilusão e Desafio no Conselho Tutelar: O Dia em que Entendi os Limites e Impossibilidades da Função
Quando assumi o mandato, estava tomado por um entusiasmo quase ingênuo. Acreditava que a disposição para trabalhar, o conhecimento técnico do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a vontade de fazer a diferença seriam suficientes para resolver a maioria das violações de direitos que chegassem à minha mesa.
Porém, a rotina no Conselho Tutelar nos confronta com uma realidade dura: a frustração de lidar com a precarização do sistema e a sobrecarga emocional de presenciar a dor de uma criança sem ter uma resposta imediata do Estado.
Quero compartilhar com você o relato de uma das piores experiências que vivi durante o exercício da função — um episódio que me marcou profundamente e me ensinou a diferença brutal entre a teoria do ECA e a prática das ruas.
O Caso: A Linha Vermelha da Burocracia e da Omissão
Lembro-me de uma tarde de sexta-feira, já no final do expediente presencial, quando recebemos um chamado de urgência da escola municipal local. Uma menina de apenas 9 anos havia relatado à professora que estava impedida de entrar em casa há dois dias e sofria agressões graves por parte da responsável direta.
Fui até o local imediatamente com o meu colega de plantão. Encontramos uma criança amedrontada, com sinais visíveis de maus-tratos e desnutrição. O acolhimento inicial foi feito com todo o carinho, garantindo a ela que estava em um espaço seguro.
A partir daquele momento, iniciamos a aplicação das medidas cabíveis previstas no ECA (Art. 101):
Tentativa de Busca pela Família Extensa: Procuramos avós ou tios cadastrados na rede para evitar o afastamento comunitário. Não havia familiares em condições de recebê-la com segurança naquele momento.
Encaminhamento Médico: Levamos a criança à unidade de saúde local para exames periciais e atendimento de urgência.
Busca por Acolhimento Institucional: Diante do risco iminente e da impossibilidade de permanência na moradia, acionamos a Vara da Infância e a rede socioassistencial para a vaga de acolhimento emergencial.
O Colapso da Rede: O Oito de Copas da Nossa Realidade
Foi nessa terceira etapa que a experiência se tornou devastadora.
Ao entrar em contato com os serviços municipais de acolhimento, fomos informados de que não havia uma única vaga disponível nas instituições da cidade ou da região metropolitana. As poucas casas-abrigo existentes estavam superlotadas e sem equipes interdisciplinares completas devido à falta de repasses e investimentos do poder público.
Passamos horas ao telefone, requisitando apoio, acionando o Ministério Público de plantão e buscando soluções junto aos órgãos competentes. A resposta da burocracia era fria: "Registrem a solicitação e aguardem na fila de espera".
Ficar em uma sala do Conselho Tutelar durante a madrugada de uma sexta para o sábado, com uma criança assustada dormindo em um sofá improvisado, enquanto você tenta impetrar medidas judiciais de urgência contra a própria falta de estrutura do Estado, é uma das sensações mais impotentes e dolorosas que um conselheiro tutelar pode vivenciar.
As Lições Marotas e Amargas Dessa Experiência
Aquele plantão me ensinou lições que nenhum curso de capacitação sobre o ECA é capaz de transmitir:
O Conselho Tutelar Não É Onipotente: Nós somos os guardiões dos direitos, mas não somos executores diretos de serviços. Se o município não investe em escolas de tempo integral, em atendimento em saúde mental, em psicólogos para o CREAS e em casas de acolhimento estruturadas, as requisições do Conselho Tutelar esbarram no vazio.
A Linha Fina Entre Envolvimento e Profissionalismo: Se você não aprender a separar a dor da vítima do seu papel técnico, a função consome sua saúde mental. Tive que aprender a canalizar a indignação em atuação jurídica e política cobrando o CMDCA e o Ministério Público, em vez de me paralisar pelo desespero.
A Solidão do Plantão: Muitas vezes, a sociedade enxerga o conselheiro tutelar como o "vilão" que retira crianças ou como o "culpado" por a rede não funcionar. O desgaste público e a incompreensão da população sobre os nossos limites legais cobram um preço alto na vida pessoal.
Por Que, Mesmo Assim, Não Abandonei a Luta?
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Depois de quase 24 horas de mobilização ininterrupta, conseguimos uma liminar judicial e a vaga para aquela menina em um abrigo com estrutura adequada em um município vizinho. Meses depois, acompanhando o relatório socioassistencial, vi que ela havia sido acolhida com dignidade e estava recebendo o acompanhamento psicológico que precisava.
Essa experiência ruim me mostrou a cara feia do sistema, mas também reafirmou por que precisamos de pessoas preparadas, corajosas e com estômago no Conselho Tutelar. Garantir direitos no Brasil é uma luta de trincheira.
Se você quer ser conselheiro tutelar, não busque a função esperando um trabalho de escritório tranquilo ou aplausos da comunidade. Busque sabendo que haverá dias de profunda frustração, mas que a sua firmeza pode ser a única barreira entre uma criança e o abandono completo.


